Relatos de parto

 

Relato do nascimento do Tomás

E foi assim que nasceu o Tomás... nasceu também uma nova mãe/mulher... um novo pai.... uma avó... duas irmãs.. uma nova família!!! Só lhes posso agradecer pelo carinho, pela confiança e por terem partilhado comigo um dos momentos mais íntimos da sua vida....


Quando tive a minha filha mais velha, há seis anos atrás, não podia imaginar a sorte que acabava por ter ao poder ter um parto vaginal, às 42 semanas e 1 dia, após mais de 24 horas de ingresso hospitalar, após um episódio de herpes genital aos 5 meses de gravidez...

Estava em Espanha e por mero acaso acabei por ir parar a uma maternidade onde o protocolo parecia ser o de reservar as hipóteses de uma cesariana às situações estritamente emergentes e explorar todas as alternativas possíveis antes de avançar com essa decisão.

Mas isto, como disse, foi por mero acaso. Curiosamente, saí daquela primeira experiência com a sensação de que aqueles médicos e enfermeiros tinham salvo a minha vida e a da minha filha... que nasceu com os olhos totalmente arregalados e uma expressão apavorada que não consigo esquecer.

Apesar de me terem permitido esperar até às 42 semanas, quando as contracções se fizeram sentir com alguma intensidade e decidi passar por lá já não me deixaram sair, devido ao tempo de gestação, pois mesmo que não estivesse em trabalho de parto, iriam induzir, de qualquer forma. Assim, deram-me uma droga qualquer para me manter quieta e caladinha durante a noite, apesar das contracções, que podiam muito bem ter sido aproveitadas e assim fiquei, à espera que a manhã trouxesse o obstetra que ia parir a minha filha. Já no dia seguinte, e até às 21 horas desse dia, quando a Beatriz finalmente cedeu e decidiu sair (eu no lugar dela também não estaria com muita vontade de vir cá para fora...), tivémos tudo a que tínhamos direito: oxitocina no soro e dores de enlouquecer, amniotomia, CTG contínuo e enfermeiras simpáticas a queixar-se da doentinha travessa que não parava quieta para deixar ler o registo, epidural, internos, médicos e sei lá mais quem a entrar à bruta sem sequer um bom dia para ver se “aquela já estava madura”, transferência para a sala de partos aos 5 cm por aparente bradicardia fetal, 5 análises de PH à bebé (tiraram-lhe amostras de sangue da cabeça – 5 vezes) para confirmar se realmente estava com falta de oxigénio, que não levaram a nenhum resultado conclusivo, já que me chegaram a dizer que não sabiam se o que estavam a apanhar era o coração do bebé ou uma veia minha (o CTG é realmente a invenção do século), kristeller, fórceps e, como não, uma bela episiotomia... e apesar de tudo isto, quando voltei a engravidar e a pensar num segundo parto descobri que, afinal, até tinha tido sorte!!

Costumo dizer na brincadeira que, antes de parir o meu segundo filho, pari o meu parto e isto não deixa de ser um facto. Quase seis anos após o nascimento da Bia, em Espanha, com todos os recursos tecnológicos mais avançados ali à mão, encontrava-me agora a viver em Angola, e a pensar seriamente em como fazer na altura do parto já que, da primeira vez, a minha vida tinha sido milagrosamente salva por uma grande equipa de bons especialistas e ali, infelizmente, não contava com esse recurso. Decidi então que o meu filho viria nascer a Portugal.

A nossa viagem começou aí pelos 4 meses de gravidez, quando comecei a contactar hospitais e serviços que aceitassem algum tipo de acompanhamento à distância. Inicialmente, achei que o melhor seria optar por um destes novos hospitais privados, onde pudesse estar segura que tinha à mão tudo o que há de mais moderno e que, graças a isso, tudo correria bem... pura ilusão!

Mas calhou ter que ficar umas semanas em casa e ter tido mais tempo para pesquisar informação útil e foi aí que comecei a descobrir um universo feminino com o qual ainda não me tinha atrevido a conectar. Começo a ler sobre doulas, parto humanizado, parto domiciliar... e descubro com alguma revolta que, no meu primeiro parto a nossa vida não só não fora milagrosamente salva por aquela equipa (da qual não recordo um nome ou mesmo um rosto), como o processo ainda tinha sido completamente boicotado pela cascata de intervenções que foram feitas.

Com algum desgosto, descubro também que, se tivesse sido em Portugal as hipóteses de ter escapado a uma indução ou mesmo a uma cesariana programada, já que tivera herpes genital aos 5 meses de gestação, eram quase nulas.

Desde aí não parei de ler, de me deslumbrar, de me indignar e de pensar e repensar o que eu realmente queria para este segundo parto. Descobri o fantástico blog da Catarina e passei a acompanhá-lo regularmente. Contactei-a, já decidida a ter uma doula e contente e agradecida por, graças a ela, ter tanta informação de qualidade acessível de uma forma tão simples. Tive resposta e mantivémos o contacto ao longo dos meses que se seguiram.

De início, decidi ter uma Doula mas nem pensar noutra hipótese que não o parto hospitalar... a essas alturas parecia-me uma aventura demasiado arriscada pensar num parto domiciliar, principalmente porque achava que ia ser muito difícil vir a ter o apoio do meu marido nessa decisão e também porque, à distância que estava das pessoas que me poderiam acompanhar no caminho dessa decisão, seria difícil haver um tempo e um espaço de discussão e reflexão. De qualquer maneira, e como quem não quer a coisa, fui deixando “cair” pelos cantos da casa artigos e informação de todo o tipo sobre humanização, parto natural, etc, etc...

O certo é que quanto mais lia e me informava e à medida que a gravidez avançava tranquila e saudável, menos o parto hospitalar fazia sentido para mim. Foi aí que comecei a colocar a hipótese de o hospital fazer parte apenas do plano B. E, sem comentar com ninguém, contactei a Ana Ramos, Parteira, e comecei a viagem interior para me preparar para um parto em casa. Afinal, o parto era meu e era um erro ficar condicionada à partida pelo receio das reacções alheias. Com toda a informação que eu já tinha, argumentos de peso era o que não me faltava.

Vim para Portugal acompanhada da minha mãe da minha filha, cerca de 1 mês antes da data prevista para o parto, o pai viria um mês depois, precisamente na data provável para o parto, dia 4 de Agosto, o que me deixava numa situação mais complicada, pois arriscávamo-nos a que ele nem sequer estivesse presente no parto, no caso do pequeno decidir adiantar-se.

Primeiro, e antes de tomar a decisão definitiva, era importante para mim conhecer aquelas pessoas com quem tinha estado em contacto durante os meses anteriores e realmente perceber até que ponto aquilo fazia sentido para mim e até que ponto as impressões que tinha criado à distância se confirmavam no contacto directo. Marquei um encontro com a Catarina e com a Ana no dia seguinte a chegar a Portugal. Se ainda me restava alguma dúvida nessa altura, ali ficou decidido que este bebé nasceria em casa.

À cautela, e visto que até àquele dia a decisão esteve pendente de muitas coisas, havia resolvido há algum tempo marcar uma consulta com uma obstetra com certa fama de “diferente”. Não deixei de ir a essa consulta, marcada há mais de 3 meses e aproveitei para fazer os últimos exames, e talvez os mais completos de toda a gravidez, pois há muito que havia desistido de ir às consultas em Angola, limitando-me a fazer os exames que considerei importantes e interpretá-los por minha conta e risco (trabalho na área da saúde). Gostei da postura dela... mas gostei menos do marketing que faz à volta dessa postura. De qualquer das maneiras, por muito diferenciada que fosse a sua atitude, para mim, já nada para além da porta da minha casa fazia sentido. E não voltei lá.

Agora era aguardar que o meu pequeno desse sinal e esperar sinceramente que a informação com que havia bombardeado o pai nos meses anteriores tivesse sido lida, compreendida e assimilada da melhor forma, pois só no dia da sua chegada a Portugal é que ele se veria perante a notícia “o nosso filho vai nascer em casa”. Confesso que isso me trazia bastante ansiosa, quase a desejar que o bebé decidisse nascer antes para não ter que enfrentar aquela conversa.

No entanto, daquela como de tantas outras vezes, o meu querido marido surpreendeu-me muito, muito, pelo lado positivo. Não só todos os meus sinais haviam sido captados, de modo a que ele já estivesse de certa forma à espera que aquela acabasse por ser a minha decisão, como se mostrou plenamente de acordo comigo, afirmando que eu tinha todo o direito a parir o meu filho da forma que eu achasse melhor para mim e para o bebé e que ele, qualquer que fosse a minha decisão, ficaria do meu lado. Por ele, teria preferido abrir o microondas e tirar de lá o bebé já “prontinho” sem ouvir um “ai” J, mas se a minha vontade era viver todo o processo plenamente, ele estaria ali e, no fundo, embora um pouco apreensivo, tão feliz como eu por poder viver cada segundo do nosso parto.

Daí em diante, foi relaxar de verdade e apenas esperar que o grande dia chegasse. Em casa, estava tudo a postos. A avó um pouco nervosa, a mana do meio ansiosa, o pai em suspenso e a mana mais velha (filha do meu marido, com 16 anos) de férias, mas de sobreaviso, porque também estaria presente no parto.

A semana 40 passou sem novidades. Todos os dias, a todo o instante, estava a espera que o meu corpo me desse algum sinal de que a hora tinha chegado. E a hora chegou, 5 dias depois da data prevista ao fim da tarde, depois de um dia como outros, em que me fartei de andar a ver se a coisa se anunciava. Tinha passado a tarde com o Tomás pai para cima e para baixo e assim que chegámos a casa senti que algo de novo estava para acontecer. Sentia-me irritável e apetecia-me ficar num canto, sem falar com ninguém. E assim fiquei, acho que nem boa tarde disse à mana Bia e à avó, deixei-me ficar no sofá da sala, apenas concentrada no meu corpo. Pouco depois, as primeiras contracções. Deixei-me ficar, podia ainda não ser desta, já tinha tido outras ameaças que depois pararam ao fim de algumas horas. Mas as horas foram passando e eu passei do sofá para um monte de almofadas que atirei para o chão e comecei a achar que as contracções, embora suportáveis, eram muito seguidas. Confirmei: de 3 em 3 minutos?!! Achei estranho, mas confiei no que o meu corpo me dizia... aquilo estava só e apenas a começar e ainda teria ali entretém para muito tempo. Não me enganei.

Por volta das 10 da noite, a avó e a mana deitaram-se e o Tomás veio ver se estava tudo bem. Disse-lhe que era melhor ir descansar porque pelo estado das coisas, ia precisar de estar bem disposto no dia seguinte. Não sei bem porquê, mas sempre senti que este meu parto também seria demorado, como o primeiro. E, embora sentisse as contracções tão próximas umas das outras sabia que a coisa não ia trazer grandes novidades antes da tarde seguinte, pelo menos.

Seriam entre as 12 e a 1 quando decidi avisar a Catarina e a Ana. Esta última sugeriu-me um duche, para ver se tudo se mantinha igual ou, eventualmente, abrandava. Foi o que fiz... e tudo se manteve igual. A essa altura, embora já fosse um pouco complicado falar e reagir a outras coisas durante as contracções, sentia-me lindamente. Ajeitei as almofadas no chão, diminuí a intensidade da luz e ali me deixei ficar a gozar cada contracção, enquanto confirmava à Doula e à Parteira que a hora estava a chegar e precisava de as ter comigo. Embora sentisse que aquilo ia demorar, começava a ficar um bocado ansiosa se seria realmente assim ou não. Também sabia que a segurança da presença delas ia ajudar o pai a manter a calma.

A Ana Ramos chegou por volta das 3, se bem me lembro e a Catarina, que ainda tinha ido buscar a Ana, minha enteada, uma ou duas horas mais tarde. O Tomás, que pouco ou nada conseguia dormir, juntou-se a nós na sala e fomos conversando entre contracção e contracção. A Catarina fez-me uma massagem fantástica com óleos essenciais de aromaterapia para estimular as contracções. Pouco depois, o Tomás decidiu-se por uma última tentativa de descansar um pouco, a minha enteada tinha subido para o quarto dela e também dormia e eu, a Catarina e a Ana ficámos por ali, também a tentar dormir um bocado. Ao amanhecer, ainda consegui descansar um pouco entre as contracções e cheguei mesmo a dormir. Tinha deixado de contar os intervalos, pois, se tinha algumas com intervalos de 1 minuto, tinha outras de 5 em 5 minutos... ou seja, se fosse a julgar por aí, só me ia baralhar. A minha mãe e o Tomás prepararm um pequeno almoço delicioso e comemos todos alegremente. Nessa altura, senti que a coisa ia abrandar, as contracções estavam a perder intensidade e pelo que percebi, apesar de não saber exactamente “como estava”, estava muito no início... tanto que a Ana sugeriu um passeio à praia a ver se retomávamos o ritmo e aquilo avançava.

Nunca esquecerei essa manhã. Era uma 2ª feira, mês de férias e a praia da Figueirinha estava linda... e com bastante gente. Assim que comecei a caminhar na areia molhada e a sentir a frescura da água do mar nos pés, fui invadida por uma energia totalmente nova, sentia-me cheia de força, e caminhei, caminhei, caminhei pela beira mar, durante imenso tempo e com imensa genica, com as pilhas novinhas em folha! Quando as contracções vinham, começava a “marchar”, enterrando os pés na areia o mais que podia e andava à roda, de mão dada com o Tomás... não sei porquê, mas aquela espécie de ritual, ao estilo “dança da chuva” acalmava-me, ao mesmo tempo
que me renovava o ânimo. As pessoas na praia deviam estar um bocado intrigadas com aquilo, mas a verdade é eu estava noutro mundo. Se no caminho para a praia fiquei um bocado apreensiva por quase não ter tido contracções, no regresso pedi à Ana e à Catarina, que iam no banco de trás do nosso carro para me apertarem as mãos com bastante força para me distrair da dor porque a coisa finalmente parecia estar a engrenar com força.

A partir daqui, apesar de ainda terem sido muitas horas, parece-me tudo muito rápido e resumido a alguns flashes cuja sequência a certo ponto me custa organizar e consegui fazê-lo mais pelas fotos que pela memória...

Sei que chegámos a casa pela hora do almoço e eu já tinha muita vontade de ir para a piscina, foi só o tempo de a encher e meti-me lá dentro. Enquanto enchiam a piscina, estive literalmente “pendurada” na escada de caracol a meio da sala, enquanto a Catarina me massajava as costas.
Só por essa altura é que comecei a perder o rolhão. Finalmente, a piscina ficou pronta e pude entrar! Que alívio!! A Bia ainda esteve por ali um bocadinho, deu-me a mão, fez-me mimos, pôs-me água nas costas, mas depois a minha mãe levou-a, primeiro para dar uma volta e depois para casa da Avó Li, a quem eu baptizei carinhosamente de “a Doula da avó”. Nessa altura lembro-me de pensar, emocionada, no privilégio que tinha por poder viver aqueles momentos tão tranquilamente, na companhia da minha família, com total respeito pelo meu tempo e pelo meu espaço...

Estive algumas horas dentro de água. Durante as contracções, a Catarina ou o Tomás massajavam-me as costas ou apertavam-me as ancas com força... aliviava-me tanto! Outras vezes, pedia para me apertarem aquela zona entre o polegar e o indicador com toda a força... era impressionante o quanto aquela pressão me trazia de volta a serenidade durante e após as contracções... só agora, quase um mês depois, é que deixei de ter essa zona dorida!

Algum tempo depois, e apesar de eu não ter vontade nenhuma de sair da água, a Ana sugeriu-me que experimentasse caminhar um bocadinho e aproveitar a força da gravidade. Reconheci que seria melhor e vim para o quintal. Não me quis vestir, e apresentei-me na rua de top interior e toalhão turco amarrado nas ancas... felizmente os vizinhos são poucos ;). Dei várias voltas à casa com o Tomás, que entretanto me ia fazendo massagens e apertanto as ancas durante as contracções, enquanto eu me ia apoiando nele, nas paredes e rodando as ancas, à medida que sentia como me abria cada vez mais. Estive também um pouco na bola, pendurando-me na cama de rede... A certa altura senti-me extremamente cansada e tive vontade de entrar na piscina novamente. Assim fiz. Nessa altura o sol começava a descer e as coisas começaram realmente a aquecer. As contracções eram muito fortes, sentia uma pressão imensa na bexiga e na zona lombar, tinha a sensação de que me ia partir em dois e comecei a achar que não ia aguentar aquilo muito tempo. Animei-me com esse pensamento, já que, segundo se costuma dizer, quando chega este momento, é porque está quase e já falta pouco para ter o pequenino nos braços. E fui, contracção após contracção, esperando alguma sensação que me sugerisse que o Tomasinho estava finalmente pronto. Por essa fase, a meio de uma contracção, senti que a bolsa se rompia com alguma violência, como se fosse um balão sujeito a uma pressão imensa... mas continuava sem reflexo de puxo e as contracções eram todas iguais, fortíssimas, uma pressão enorme na bacia... e nada de vontade de fazer força. Ao fim de algum tempo naquilo, comecei a entrar em pânico. Só pensava que tinha que continuar a respirar para não perder o controle mas a respiração (sei pelas gravações) saía-me como um grito/rugido que me parece incrível que tenha saído da minha boca! Estava exausta e começava a pensar que, se aquilo não avançava, era porque se calhar ainda não estava na hora. Pensar que ainda poderia estar a muitas horas de que o bebé nascesse trouxe-me alguma aflição e comecei a entrar naquele tão temido ciclo medo-tensão-dor. Não sei quanto tempo passei assim, mas a certa altura pensei que era “o fim da linha”, de tal forma estava desnorteada. Acho que a certa altura perguntei em voz alta se não podíamos parar e continuar mais tarde J. Mesmo sem vontade nem grande convicção, cheguei a fazer força durante as contracções, mas a dor tornava-se insuportável e cheguei à conclusão que era melhor esperar. Nesses momentos, que não sei bem quantas horas duraram, valeram-me a voz suave da Catarina para me serenar, encorajando-me a abrir o meu corpo e deixar o meu filho nascer, o apoio incondicional do Tomás que ia repetindo baixinho “tu consegues, meu amor, claro que consegues...” e, mais à frente, a ideia brilhante da Ana para me fazer voltar ao caminho. Ela já tinha feito a leitura de que a água não estava a ajudar muito naquele momento e que era preciso uma mudança para nos ajudar a ultrapassar aquele impasse. Já tinha tentado sugerir de algumas formas que talvez fosse boa ideia experimentar sair um bocadinho da água... mas eu nem queria ouvir falar nisso e não lhe fazia caso. Então, ela encontrou as palavras mágicas: “Linda, estás tão cansada... porque é que não experimentas ir te deitar um bocadinho e depois voltas?” Que óptima ideia – pensei eu – estou mesmo a precisar de descansar um bocado ;)! Saí da água e deitei-me na cama, às escuras. O Tomás deitou-se comigo. Acho que não tinha passado nem um minuto de nos deitarmos quando senti o que era evidente há horas: “Bolas, é agora, está na hora, o Tomasinho quer sair”. Pedi-lhe que as chamasse e pedi à Ana o banco de partos. Ela trouxe-o em seguida e, em menos de nada, estava a fazer força. Senti como a cabeça do meu bebé, que há tanto tempo pressionava a mesma zona, descia agora a bom ritmo, deixando a dor dar lugar a uma sensação única de poder animal, de ter o mundo todo cá dentro a querer sair, uma vontade louca de explodir, de dar à luz...

A Ana colocou o espelho à minha frente e, depois de uns quantos empurrões, comecei a ver a cabecinha do bebé a aparecer lá no fundo. Foi nessa altura que o Tomás, até aí atrás de mim, foi discretamente substituído pela Catarina pois precisou de ir “arejar” um pouco. Com mais um empurrão, vi a vulva a distender-se, mas não me sentia cónfortável, tinha as pernas dormentes, não as conseguia abrir bem nem apoiar os pés e tinha vontade de me pôr noutra posição. Decidi ficar de gatas... no chão! E, por momentos, gerou-se um silencioso caos atrás de mim, já que a Ana não conseguia ver nada assim nem tinha espaço para colocar almofadas ou resguardos onde o bebé pudesse nascer confortavelmente. Depois de um breve impasse, a Catarina lá conseguiu convencer-me a passar para a cama. Aí, com mais três empurrões, nasceu o meu menino. Primeiro a cabecinha, que toquei e acariciei, incrédula com o que me estava a acontecer... e de seguida o resto do corpinho, num “pop” molhado. O Tomás, já recuperado, estava agora à minha frente, super emocionado.
A Parteira amparou o bebé e passou-o entre as minhas pernas, para que lhe pegasse. Foi indescritível a sensação de segurar aquele corpinho quente e escorregadio. Estava branquinho, de olhos fechados... e era tão lindo! Começou logo a gorgolejar, mas só fez alguma coisa que se parecesse a chorar ao fim de uns minutos. Pouco depois, abriu os olhinhos, pegou no peito e assim ficámos, a namorar, deitados na cama, não sei se por minutos ou horas. O pai anunciava o nascimento à mana grande, que entretanto tinha ido “arejar” também. Ela veio conhecer o mano e esperámos que o cordão parasse de pulsar para que ela o cortasse. Pouco depois a placenta nasceu, com duas contracções em que me lembro de gracejar “São gémeos!” A mana do meio e as avós chegaram entretanto e juntaram-se a nós. A pequena não cabia nela, tal era a excitação por, finalmente, conhecer o “cara de umbigo” J! Depois, foi hora de “reparar os estragos”, que os havia (4 pontinhos no períneo e alguns também por dentro), tomar uma banhoca, comer e descansar. Eu, embora a cabecear de cansaço, estava totalmente em êxtase... tinha PARIDO o meu filho... imaginei tantas vezes aquele momento que não podia (ainda hoje não posso) parar de o reviver.

Claro que isto é tudo menos uma peça de teatro que se ensaia para sair direitinho como no guião. Muita coisa aconteceu de maneira diferente ao que eu tinha imaginado, sem por isso deixar de ser único e maravilhoso, foi o MEU parto, aquele que eu tinha que viver, aquele com que sonhei durante tanto tempo. E foi tão bom que pudesse ser entre pessoas tão queridas, num ambiente tão calmo! Estavam todos ali... o pai, as manas, as avós e duas mulheres fantásticas, incansáveis na missão de lembrar a todo o momento esta família de que este era o nosso parto...

Ainda me perguntei durante alguns dias porque razão o momento do parto em si demorou tanto a manifestar-se no meu corpo, independentemente de estar ou não na piscina, independentemente da força da gravidade ou do cansaço... e lembrei-me de um filme que vi sobre partos na água em que uma parteira dizia que, para ela, o momento mais extraordinário de qualquer parto era aquele em que a mulher, de repente, se dava conta de que ninguém poderia fazer aquilo no lugar dela e, naquele preciso momento, se entregava totalmente. E reconheci que foi essencial ter tido aquelas horas de conflito com o meu corpo para aprender a confiar nele. Este parto foi, para mim, uma lição de humildade e um momento de grande crescimento pessoal.

Muito obrigada a todos; em primeiro lugar à minha queridíssima Doula Catarina Pardal, que por muito que diga e repita que não teve nada a ver com o parto em si, foi ela que, a mais de 6 mil km de distância e se calhar sem saber até que ponto o trabalho dela foi importante no meu caminho, me encorajou a procurar o meu próprio poder, a minha feminilidade mais profunda. Nunca saberei como lhe agradecer. As palavras são poucas para descrever o que a sua extraordinária postura discreta e amiga foram capazes de fazer na minha vida. Mil vezes obrigada por tudo, minha querida!

À minha Parteira, Ana Ramos, que esteve sempre lá, com a palavra certa no momento certo, aliando como ninguém a segurança e o carinho, muito mulher, muito mãe, muito amiga!

Ao meu marido que pariu este filho comigo e certamente lhe custou mais a ele que a mim! Obrigada, meu amor, pela confiança que depositaste em mim e por partilhares comigo a beleza e a intensidade deste momento... fomos capazes!!

À minha filhota Bia por me ter posto a pensar no sentido do nascimento. Pela mãozinha amiga e pela água morna... ;)

À minha enteada, uma jovem e linda mulher que espero que cresça sem medo, com consciência e orgulho pelo facto de o seu corpo estar “maravilhosamente desenhado para fazer nascer uma criança”.

À minha mãe por, apesar da sua relutância, ter aceite a minha opção e se ter empenhado em ajudar-me a tornar este sonho realidade e à querida Mãe/Avó Li por ter sido a “Doula da Avó” e pelo carinho de tantos anos... à mana Vera também, apesar da distância não ter permitido que estivesse presente.

MUITO OBRIGADA!

Claro que há sempre reflexões a posteriori, que nem sempre, ou melhor, quase nunca aparecem nestes relatos e que acho, já que o tema está tão na moda e cada dia se fala mais de humanização, da necessidade de devolver às mães (e aos pais, evidentemente) os momentos mais importantes das suas vidas, que vale a pena falar nelas.

Como mãe, como mulher, considero o parto um marco muito importante no caminho do crescimento interior de uma mulher. O parto em casa é uma opção, uma opção que não se pode considerar “como qualquer outra” porque, principalmente em Portugal, ainda implica que estejamos totalmente preparados para assumir a responsabilidade total por cada momento, cada decisão que tomamos ou deixamos de tomar. Um dia, uma pessoa muito querida disse-me uma coisa que na altura não percebi muito bem: que a maioria das mulheres que escolhiam um parto em casa o faziam apenas para fugir das rotinas hospitalares. Agora entendi o que queria dizer. Temos todo o direito de fazer escolhas, as escolhas são nossas e seja o que for que nos leva a fazê-las, é connosco. Mas um parto em casa, qualquer que seja a razão que nos levou a escolhê-lo, é um parto onde, apesar de assistidos, temos que estar conscientes que a responsabilidade é toda NOSSA. Se não nos sentirmos confortáveis com a decisão, se a maneira como a encaramos é do estilo “dos males o menor”, aconselho vivamente a repensar, pois se alguma coisa corre menos bem, a tendência é culpar quem nos assiste, quando no fundo o nosso medo e as nossas inseguranças estão muitas vezes na raíz dos percalços durante o trabalho de parto.

Pelo que me diz respeito, tive a sorte de ter tempo suficiente para “sonhar” o meu parto e para tomar aos poucos a consciência total do que significava dar à luz por minha conta e risco... e também de ter comigo uma dupla verdadeiramente incrível de grandes MULHERES que conhecem bem os recantos da essência feminina que nos é comum e sabem como ninguém dar o espaço necessário para que cada mulher renasça e se reinvente no seu parto; mas se o assunto está tão na berlinda e as mulheres começam cada vez mais a pesar esta opção, não se esqueçam de pensar nisto. Não se trata apenas de fazer uma opção, mas sim de assumir uma atitude.

Por outro lado, quando depositamos tanta energia na vivência de uma experiência de parto, muitas vezes esquecemos o que está “para lá” do parto. Ao viver um parto empoderador, a mulher sente-se dona do mundo e acha que tudo vai ser perfeito. Mas não é. O bebé, como todos os bebés, chora, tem gases, acorda de noite e deixa-nos “em frangalhos” durante as primeiras semanas. Portanto, não esqueçamos o que vem depois e que, apesar de termos vivido o nosso parto e, em geral, um bebé nascido assim se mostrar mais tranquilo nos primeiros dias e a mãe mais disposta e moralizada... os primeiros tempos não são fáceis. Como diz aquela piada da senhora que acabou de parir e pergunta ao médico: “Dr., o pior já passou, não é?! Ao que ele responde: “Não, minha querida, esta foi a parte fácil, o pior acaba de começar!” Claro que é um exagero... não é fácil, há que fazer uns exercícios de “bom senso e estupidez natural”, como diz a minha amiga Raquel ;), mas no final é como uma dança em que vamos apanhando o ritmo e acertando o passo com a nossa dupla. Se relaxarmos e seguirmos o nosso instinto, acaba por funcionar. Isto só para lembrar que depois do parto ainda vem o “quarto trimestre”, que é tão ou mais importante para uma vivência plena do que é SER MÃE!

C.

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Parto da Beatriz

A minha filha nasceu no dia 7 de Setembro e, desde então, tenho estado em casa, onde não tenho acesso ao e-mail. Mas hoje, tirei parte da tarde para poder vir enviar um e-mail à lista em forma de reconhecimento por todo o carinho, amizade, informação e apoio que recebi ao longo destes meses. O que fez toda a diferença no meu parto.

Tenho imensa pena de não ter assistido ao Congresso da Humpar e espero poder vir a ler as actas ou uma publicação com as contribuições dos participantes e, a propósito do tema, acho que, em síntese, posso dizer que tive uma gravidez muito humanizada e um parto humanizado com muitas intervenções. Não foi o parto que idealizámos e que preparámos mas acho que correu muito bem. O que é irónico é pensar que alterar os principais procedimentos que tornariam um parto totalmente humanizado custaria zero. Fala-se tanto na racionalização de custos e no que isso implica em termos de escassez de meios mas neste caso parece que os meios não são nada escassos, nomeadamente os humanos, o que parece haver é medo de perda de afirmação e protagonismo num momento que não é de mais ninguém senão da própria mulher. É aí que as doulas fazem a diferença. É que estas profissionais sabem bem qual o seu papel, sabem bem que o protagonismo não é seu e, ao saberem estar no seu lugar e actuar quando faz sentido, ajudam a mulher que pare e a criança que nasce a confiar em quem têm à volta e na sua própria força e poder.

A decisão de descrever o meu parto prende-se com duas razões. Em primeiro lugar, devo ter lido mais de cem relatos de parto (que fui descobrindo em sites portugueses e brasileiros) durante toda a gravidez (ainda ninguém se lembrou de compilar essas experiências riquíssimas em livro ou é ignorância minha?) Foram de uma ajuda preciosíssima para o final da gravidez e para o parto em si porque fui encontrando semelhanças em muito do que fui vivendo com os muitos relatos que li e isso ajudou-me a relativizar ansiedades, inseguranças e preocupações. Deu-me muita tranquilidade e paz interior. Isso fez-me querer também deixar um pequeno testemunho da minha experiência.

Por outro lado, tinha que deixar um testemunho nesta lista que foi uma grande companheira na minha gravidez e onde eu aprendi imenso. A minha gravidez e o meu parto teriam sido totalmente diferentes se eu não tivesse acompanhado esta lista de discussão e, sobretudo, se não tivesse tido o acompanhamento de duas incríveis doulas: a Luísa Condeço e a Mariana Vilas. A Mariana, com quem fiz yoga para grávidas quase desde o início da gravidez (o que foi determinante para o trabalho de parto, para o período expulsivo e para a recuperação pós-parto) e com quem conversei sempre muito e a Luísa que foi uma amiga, uma companheira, uma confidente, um porto de abrigo, uma conselheira, uma dádiva de Deus. A Luísa marcou imenso a minha vida pela entrega total a esta causa, às mulheres que acompanha, pela forma como nos leva a reflectir sobre a gravidez, sobre a vida, sobre nós próprias e como nos ajuda a construir um caminho de evolução que nos prepara de uma forma incrivelmente serena e tranquila para uma nova vida que é a vida de mães e pais.

Há dias, olhava para o folheto de apresentação das doulas, onde se diz que as doulas prestam acompanhamento emocional e informativo ao longo da gravidez, parto e pós-parto. E ao ler essa frase pensei: “É incrível como esta frase encerra tanto conteúdo… o papel das doulas é tão forte que quase não cabe em palavras e frases. Por isso, é melhor escolher frases simples, como esta. A simplicidade diz, de facto, muito.”

O nascimento da minha filha decorreu mais ou menos assim:

Acho que tudo começou quando, um dia, eu e o meu marido decidimos pôr uns cortinados e eu decidi forrar as gavetas dos moveizinhos da Beatriz para começar a arrumar as roupinhas dela. Ainda faltava um mês para a data prevista do parto, por isso, podíamos fazer tudo com calma mas, naquele dia, apeteceu-nos. A certa altura comecei a ficar impaciente e decidi parar com tudo mas as gavetas ficaram forradas e a roupinha arrumada. Percebi que tinha um levíssimo corrimento gelatinoso e pensei: “E se fosse já?” Achei piada à ideia mas desliguei. Podia ser o rolhão mucoso, na verdade. Eu achava que não podia ser nada porque ainda faltavam quatro semanas! A ideia de ter a minha filha antes do final do tempo nunca me tinha ocorrido. Aliás, sempre pensei que pudesse até passar do limite das 40 semanas. E sempre que lia sobre gravidez, passava à frente os capítulos sobre partos prematuros.

No dia seguinte fiz a minha vida normal. Trabalhei e fui ao yoga. Depois do jantar, quando me levantava da mesa, senti que perdia líquido amniótico. Como se urinasse involuntariamente. O líquido cheirava a maresia (como a Luísa me tinha explicado) e era incolor. Não tive dúvidas do que era. Aí percebi que o parto podia estar bem mais perto do que imaginara e fiquei triste ou com pena. Isso implicaria alterar os nossos planos. Fomos gerindo a situação, tentando perceber se a perda era permanente. Como se confirmou que sim, acabei por ir às urgências da MAC, onde trabalha o meu médico que não estava em Portugal mas com quem troquei sms. Estive sempre em contacto com a Luísa e depois também com a Eilis (parteira). Ainda tinha a esperança de não ter rompido as membranas e de com uma ecografia se perceber que estava tudo bem, podendo, assim, vir para casa. Por isso, não levei roupinhas para a bebé, levando só umas camisas de dormir, escova de dentes e chinelos para mim. Fui com o meu marido para a MAC, avisámos os nossos pais e avisei também uma enfermeira amiga que lá trabalha e que me acompanhou o tempo todo até ao nascimento da bebé. Foi um anjo da guarda e fez-me sentir muito amparada durante todo o tempo que lá estive.

Assim que entrei na MAC, e de forma irracional, accionei um mecanismo de entrega total. Entrega, acho que à ideia de que faria tudo para estar tranquila para o nascimento da minha filha. Isso implicaria aceitar alguns procedimentos que tinha planeado evitar.

Confesso que me senti tão tranquila que os aceitei de bom grado e, para isso, toda a caminhada que fiz na gravidez foi determinante.

Assim que cheguei mandaram-me fazer um CTG (é bem desconfortável…). Com os meus sintomas, a enfermeira de serviço ralhou por eu não ter ido a correr para a maternidade assim que perdi líquido amniótico pela primeira vez e foi fazer-me um toque, o primeiro de dezenas que me fizeram não sei quantas pessoas. Ainda tentei contar as vezes que me fizeram o toque e a quantidade de pessoas pelas mãos de quem eu passei mas já não consigo fazer essa reconstituição. Foram dezenas, seguramente. Também não me incomodou. Estava muito concentrada na minha filha.

A enfermeira fez-me o toque e disse: “Não tem bolsa rota”. E eu respondi: “Pois, mas estou a perder líquido, isso eu sei”. Ela disse que devia ser urina mas com a minha insistência disse, então, que outra médica me veria. Mais um toque, o mesmo diagnóstico. Eu continuei a insistir e, à terceira, quando entrava noutro gabinete, de outra médica o líquido começou a escorrer-me pelas pernas. A médica observou-me e disse: “Tem bolsa rota. Fica internada”.

Fiquei, então, a pensar que o nascimento da minha filha aconteceria mais cedo do que eu imaginava. Avisámos o meu marido que foi a casa buscar os meus exames anteriores (até isso eu não tinha levado e ele depois também se voltou a esquecer!) e roupa para a bebé e que avisou os nossos pais. Assim que ele chegou foi ter comigo que já estava no quarto onde passaria por todo o trabalho de parto e onde decorreu o nascimento.
 
Eu tinha chegado às urgências por volta da hora do almoço e cheguei ao quarto (sala de partos) por volta das 15h. Depois da decisão de internamento (não me chegaram a fazer ecografia) fui para uma pequena sala, com um duche e uma casa de banho. A enfermeira disse-me para me despir que já vinha fazer a rapagem de pêlos púbicos. Eu disse que preferia não fazer mas não fui atendida… esperei nessa sala e ela não voltou a aparecer. Chegou uma auxiliar que trazia uma menina muito assustada também com ruptura de membranas e que tinha chegado à maternidade de ambulância. A auxiliar perguntou-me o que estava ali a fazer. Perguntou (sempre secamente e eu muito tranquila e descontraída) se já tinha feito o clister. Respondi que não. Disse-me para me deitar, rapou-me, deu-me o clister e foi-se embora. Falei um pouco com a menina assustada que me disse que perdeu líquido e sangue e me perguntou se comigo também foi assim. Tentei tranquilizá-la. Chegou uma enfermeira a quem disse que ia tomar um duche antes de sair. Não me respondeu. Depois levou-me para um gabinete para eu responder a um formulário. Fui, de seguida, para a sala de partos. As instalações eram óptimas, com um quarto para cada pessoa, com privacidade, música ambiente e temperatura regulável. Entretanto, chegou logo o P. Puseram-me a soro e ligaram-me ao CTG. Não tinha contracções.

Por voltas das 16h, continuava sem contracções e começaram a administrar-me occitocina. As contracções começaram de imediato. No início, achei piada. Mas em muito pouco tempo comecei a ter contracções de três em três minutos, quase sem tempo para respirar no intervalo. Pensei que conseguisse aguentar se a dilatação se fizesse depressa. Os toques sucediam-se e eu tinha sempre um centímetro, um centímetro, um centímetro… Não passava daí. O P ajudou-me imenso. Estive assim até cerca das 23h45 da noite, com um centímetro de dilatação. Às vezes, mordia a almofada. Não me apetecia falar, gritar, ouvir fosse o que fosse. Só me apetecia concentrar na minha princesa que estava quase a conhecer. E pensava que cada contracção representava mais um passo para o nascimento e para a vinda ao mundo da minha filha. Comunicava com ela e ela comigo. Estivemos sempre em sintonia, não tenho dúvidas disso. E ela portou-se divinalmente.

O P começou por tentar falar comigo, para eu me distrair. Disse-lhe que não me dissesse nada e ele percebeu de imediato. Eu nem permitia que ele me tocasse. Estava completamente entregue àquele momento, à minha dor, à vinda da nossa filha. Mas a presença dele era imprescindível. Eu nem o deixei ir comer… E ele ajudou-me imenso. Como eu estava a ser monitorizada ele acompanhava a intensidade e a frequência das contracções. E sempre que uma começava a abrandar ele dizia-me, a sussurrar: “Está a passar, está a passar, está a passar, …” E aí eu deixava a respiração ofegante e começava a respirar fundo. Por pouco tempo, porque a occitocina artificial não perdoa e, segundos depois, lá vinha outra. A vantagem do CTG foi mesmo essa, foi a de permitir que o Pedro me ajudasse tanto sem que eu tivesse que falar. Foi maravilhoso. Mas a minha vontade era desligar aquilo tudo e andar pelo quarto, praticar os exercícios que a Mariana tão bem me ensinou… Ainda pedi a uma médica para andar no quarto mas ela olhou para mim com ar compreensivo mas com o silêncio disse-me: “não, tens que estar assim”. Mas o seu olhar confortou-me… E depois disse-me para eu me sentar na cama. O problema é que eu tinha que estar sempre na mesma posição, super desconfortável, porque em qualquer outra posição perdia-se o sinal do batimento cardíaco da bebé. Era posição entre a posição de barriga para cima e a de virada para o lado esquerdo. Não me podia sequer sentar porque já tinha montada a estrutura para “pendurar” as pernas a meio da cama e isso também me impedia de tirar as pernas de cima da cama.

Enfim, a certa altura, eu, que não queria epidural, só pensava no alívio das dores e na minha princesa. Mas como não passava de um centímetro de dilatação e para a epidural diziam-me que tinha que esperar até aos três centímetros, nada a fazer. Eu não dei pelo tempo passar mas quando perguntei as horas já era quase meia-noite. Achei estranhíssimo. Às vezes tinha frio, outras calor e íamos pedindo para regularem a temperatura. Também nos deram cobertores. Então, perto da meia-noite, para apressar o processo, num dos muitos toques, uma médica literalmente abriu-me o colo do útero. Passei, nessa altura, de um centímetro para três. E foi o momento mais doloroso de todo o processo. Gemi profundamente e tive uma dor que julguei ser insuportável. Mas passou… Depois, prepararam-me para a epidural. A anestesista não foi simpática e fez questão que eu não tivesse ajuda para me sentar e me virar de lado na cama e ainda me ia dizendo que não tinha o dia todo. A certa altura, disse-lhe que teria que esperar porque eu estava a meio de uma contracção e não me conseguia mexer. Ela esperou. O Pedro diz que ela era brincalhona mas não foi o que senti na altura. A auxiliar que estava a ajudá-la confortou-me porque apesar de a médica não a deixar ajudar-me, pelo menos tentou.

Depois da epidural, o alívio foi imediato. Deve ter sido uma dose fraca porque sentia na mesma as contracções e não me lembro de perder muita sensibilidade. Uma hora depois, as dores fortíssimas estavam de volta. Deram-me um leve reforço. E, pouco depois, uma médica fez-me novo toque e disse: “Daqui a uma hora, está pronta!” Fiquei feliz. Continuava sempre em ligação com a minha filha e tinha total convicção de que ela estava tranquila como eu. Nessa altura, pensei que ninguém me tinha perguntado qual a sua posição nem tinham visto as ecos porque o Pedro voltou a esquecer-se de as trazer quando foi a casa buscar as coisas. Mas pensei que o que era importante é que nos estávamos a preparar para um parto vaginal que era o que eu tinha sonhado. E a bebé devia continuar bem posicionada como revelara a última ecografia que eu tinha feito, às 32 semanas. No dia em que eu cheguei à maternidade, eu estava exactamente com 36 semana de gestação.

Perto das três da manhã (devia faltar cerca de um quarto de hora) comecei a sentir uma contracção diferente, sentia vontade de fazer cocó. Pelas conversas com a Luísa e pelos relatos de parto que tinha lido, isso era sinal de que o parto estava eminente. Estávamos eu e o P, e o ambiente, fora do quarto, estava muito calmo. Parecia que todos dormiam. Tocámos a campainha e veio uma auxiliar, a quem eu disse que tinha vontade de fazer cocó. Perguntou se eu queria uma arrastadeira. E eu disse que não, que era mesmo o parto que devia estar próximo. Chamou uma enfermeira que me fez o toque e disse: “Vai parir!”. Veio outra enfermeira e um médico. Mas quem preparou tudo e assistiu o parto foi a primeira. Gostei muito dela. Chama-se Irene Cristina (perguntei-lhe, no fim). Começaram a preparar tudo e eu estava muito calma e lúcida. Sentia as contracções mas de uma forma não tão violenta como antes. Olhei para a enfermeira e pedi-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, para endireitar as costas da cama, para não ficar tão deitada. Ela assentiu de imediato e eu fiquei mais sentada. Em segundo lugar pedi-lhe para não me fazer episiotomia. Ela disse que não o faz por princípio mas que não deixaria rasgar pelo que se visse que o períneo ia lacerar, então cortaria. Confiei nela. Valeu a pena.

Ela disse-me para colocar as pernas na estrutura que tinha de ambos os lados da cama e deu-me as seguintes indicações: “No início de uma contracção, inspire profundamente, retenha o ar, incline-se para a frente, encoste o queixo ao peito e faça toda a força que conseguir como se fosse fazer cocó”. Ouvi com toda a atenção. Da primeira vez, comecei de imediato a ouvir palavras de encorajamento, em que ambas as enfermeiras me diziam: “É isso mesmo, vai muito bem, força, é mesmo isso.” Repeti este procedimento três ou quatro vezes, com toda a intensidade e entrega que poderia concentrar em mim. Nada mais me interessava, só aquele momento, só a ideia de ajudar a minha filha a nascer. Depois, de repente, senti-me muito cansada e perguntei: “Falta muito?”. Várias vozes me responderam: “Está quase, já se vê a cabecinha!!”. Aquela frase deu-me uma ânimo e uma concentração enormes e, na contracção seguinte, a cabecinha da bebé saiu. Aí, a parteira disse-me para não fazer mais força e depois o resto do corpinho da bebé saiu muito naturalmente. O meu períneo ficou intacto.

Tenho pena de algumas coisas que aconteceram depois e que me esqueci de pedir para acontecerem de outra maneira… (não sei se seria atendida, mas não custava tentar… não tinha forças para exigir…). O cordão umbilical foi cortado de imediato e pareceu-me que a enfermeira ficou meio aflita por a bebé não respirar logo. Podiam ter deixado que parasse de pulsar.

Depois, pensei que a bebé viesse para o meu peito mas a outra enfermeira (que era meio eléctrica e que parecia meio incomodada por ainda não ter participado o suficiente) disse que a bebé tinha que ir fazer calor e mais não sei o quê e deu-ma para lhe dar um beijinho e depois levou-a de imediato. Fiquei como uma fêmea sem cria, totalmente desorientada e só dizia: “Mas para onde é que a levam? Tragam-na depressa, eu quero ter a minha filha perto de mim…”

A minha filha nasceu às 3h do dia 7 de Setembro e teve um índice de apgar 9/10. Nesse dia (noite) não dormi e fiquei a observá-la até amanhecer.

A imagem mais comovente e bonita que vi em toda a minha vida foi o seu olhar, depois do nascimento. O olhar de um recém-nascido é, sem dúvida, um olhar abençoado, puro, limpo e genuíno. Acabadinho de chegar do Céu…
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