Porquê ter uma doula?

Primeiras referências a doulas na Modernidade

Em todas as imagens antigas que representam um parto podemos observar como era comum a presença de uma ou mais mulheres, facilitando ou apoiando o nascimento de um bebé (e de uma mãe). Eram normalmente mulheres mais experientes que já haviam tido outras crianças ou assistido a mais partos. Era comum este hábito de as mulheres se juntarem para este evento e todas tinham uma função. Este padrão era repetido nascimento após nascimento. Algumas mulheres tornavam-se verdadeiras peritas neste apoio, dando origem às primeiras parteiras, visando o trabalho uma a um, ou seja, a parteira com a sua sabedoria milenar, considerando a fisiologia natural do nascimento e apenas com aquela mulher naquele momento. Outras mulheres davam outro tipo de apoio, normalmente mais emocional e prático - estas foram as primeiras doulas.

 

Doula é uma palavra grega que significa mulher que serve e era designativa das mulheres que cuidavam de outras, especialmente grávidas, mulheres lactantes ou com crianças recém-nascidas. As doulas acompanhavam o crescimento destas crianças nas suas várias etapas de desenvolvimento, estando muitas vezes presentes, como uma figura materna de confiança, ao lado dos filhos da mulher a quem serviam. Esta palavra foi usada pela primeira vez no ocidente pela escritora americana Dana Raphael no seu livro “The Thender Gift” onde é feita a referência a mulheres que facilitam o apoio emocional e físico a outras durante o trabalho de parto e parto.

 

Mas tarde, uma equipa de pediatras, Marshall Klaus, Phillys Klaus e John Kennel (falecido em Agosto de 2013), usaram esta designação para descrever as mulheres que davam apoio físico em hospitais na Guatemala, onde efetuaram um estudo sobre os benefícios deste apoio.

 

Seis trabalhos randomizados e controlados confirmam os benefícios do trabalho das doulas. Destes seis estudos, dois foram realizados na Guatemala (um com 136 mulheres e outro com 465 ). Os restantes estudos foram realizados no Texas (com 416 parturientes), em Johanesburg, África do Sul (com 192 parturientes), na Finlândia e no Canadá. Todas as participantes do estudo eram primíparas, saudáveis e tinham tido gravidezes sem qualquer problema médico. Foram selecionadas para participar no estudo aquando da admissão no hospital, apresentando-se já em trabalho de parto.

 

As doulas da Guatemala foram treinadas num curso de três semanas, mas as da África do Sul eram mulheres simples e sem treino. Todas foram orientadas a permanecer constantemente ao lado das grávidas, utilizando verbalizações e toque e tendo como foco três fatores primários: conforto, confiança e reforço das capacidades. Todas as doulas deste estudo haviam tido a experiência prévia de trabalhos de parto normais e partos vaginais.

 

Os resultados do estudo foram impressionantes:

 

  • 50% de redução nas cesarianas;
  • 25% de redução na duração do trabalho de parto;
  • 30% de redução no uso do fórceps;
  • 40% de redução no uso de ocitocina;
  • 60% de redução no uso de analgesias epidurais;
  • 30% de redução no uso de medicação para dor.

 

Além disso, outros resultados positivos foram acrescentados, a saber:

 

  • Aumento nas taxas de amamentação;
  • Diminuição dos índices de Depressão Pós-Parto;
  • Aumento da satisfação materna;
  • Reforço da interação mãe-bebé.

 

A Biblioteca Cochrane de Medicina Baseada em Evidências deixa muito clara a importância das doulas para a melhoria dos resultados obstétricos, demonstrando que a assistência oferecida pelas doulas é sustentada por evidências claras e inquestionáveis:

 

“Levando-se em consideração os claros benefícios e a ausência de riscos associados com o apoio durante o parto, todos os esforços devem ser feitos para assegurar que qualquer mulher em trabalho de parto receba suporte contínuo, não apenas daqueles próximos a ela, mas também de profissionais treinados. Esse suporte deve incluir presença contínua, conforto pelo toque e encorajamento”.

 

Todos conhecemos a equipa hospitalar que atende partos: um médico, uma ou mais enfermeiras, um anestesista e outros auxiliares. Neste ambiente centrado na tecnologia e no controlo das máquinas, onde e quem cuida do bem-estar físico e emocional da mulher? Perdeu-se o sagrado deste evento e cada vez mais se impõe a presença de uma acompanhante profissional que facilite todo o apoio emocional e físico à mulher que dá à luz.

O parto é um evento social, afetivo, físico, sexual e emocional, e no ambiente desconhecido e mecanizado dos grandes hospitais assiste-se a um incremento de medo, ansiedade e dor, que estão profundamente relacionados (um leva ao outro e aumentam-se reciprocamente). Surge assim a necessidade de considerar o apoio emocional e afetivo à grávida em trabalho de parto. Os estudos de Klaus e Kennell comprovam exatamente isso: não há risco algum em ter um acompanhante de parto. Antes pelo contrário, os autores verificaram que são muitos os benefícios deste acompanhamento, tais como a redução da duração do trabalho de parto, menor perceção da dor, maior satisfação das mulheres, menos taxas de cesariana, etc.

 

 

O que faz e não faz uma doula?

O papel da doula

A doula é alguém que conhece e compreende a fisiologia do parto, que respeita e tenta assegurar as necessidades básicas de uma mulher em trabalho de parto e, acima de tudo, respeita as opções da mulher grávida/casal, apoiando nas decisões informadas e conscientes.

 

Durante a gravidez

Acompanha a grávida durante a gestação através de apoio emocional, esclarecimento de dúvidas e procura de informação. Ajuda também a planear e desmistificar o trabalho de parto e puerpério (pós-parto).

Durante o Trabalho de Parto

No trabalho de parto, a doula está ao lado da mãe criando uma esfera de proteção e confiança que facilita a progressão do trabalho de parto. A doula poderá propor medidas de conforto como duche ou banho, toque de conforto, relaxamento ou respiração profunda. A doula apoia também o pai e mostra como ele poderá ser útil e mais participativo, se for esse o desejo do casal.

Quando o parto decorre no hospital, a doula é a única profissional que garante assistência personalizada e contínua à parturiente, funcionando também como um elo de ligação entre a equipa de atendimento e o casal. Ela explica os termos médicos e os procedimentos hospitalares visando sempre proteger a experiência emocional do parto para o casal. A doula não executa atos médicos nem perturba a equipa médica.

No Pós-Parto ou Puerpério

A doula também presta serviços no pós-parto, nomeadamente no que respeita aos cuidados a ter com o recém-nascido, apoio na amamentação, adaptação da família a um novo elemento ou realização de pequenas tarefas domésticas (caso a doula disponibilize este serviço).

 

O que a doula não faz:

A doula não efectua qualquer procedimento médico, e portanto, não substitui qualquer dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto. A doula não deve perturbar o ambiente domiciliar nem hospitalar por razões pessoais ou outras. A equipa precisa de sentir que a doula é um elo de ligação e uma mais-ajuda ao processo e não uma perturbação ou entrave.

 

Que benefícios traz uma doula ?

A presença da doula produz um clima de intimidade, carinho, afeto e, acima de tudo, segurança.

As mães relatam uma experiência de parto mais satisfatória e gratificante, sentem-se mais fortalecidas, apresentam níveis mais baixos de ansiedade e níveis mais elevados de atenção e recetividade para com o seu bebé. O risco de depressão pós-parto também é diminuído. Tudo isto favorece o vínculo precoce entre ambos.

Além dos benefícios para mãe existem outros benefícios importantes:

Para o bebé

Os benefícios para o bebé também são evidentes. O risco de complicações e de internamento prolongado é diminuído, favorece-se o sucesso da amamentação e o reforço do vínculo mãe (pais) / bebé.

 

Para a equipa hospitalar (médicos e enfermeiros)

No que concerne à equipa médica, a doula contribui também para a diminuição da sua ansiedade, da pressa, dos receios e de todas as intervenções médicas daí decorrentes.

 

A presença da doula ajuda a grávida a perceber qual a melhor altura para se dirigir ao hospital/maternidade, evitando que essa deslocação se realize demasiado cedo (processo que pode desencadear a trilogia stress/tensão/medo).

A entrada no trabalho de parto franco (ativo) e a chegada ao ponto de não retorno (a partir da meia dilatação) asseguram e firmam a confiança da parturiente e da equipa médica. Optar por ter uma doula é, muito provavelmente, a decisão mais importante que uma mulher pode tomar durante a gravidez para tentar viver um parto humanizado.