Plano de parto

(para mais informações ler o parecer da Ordem dos Enfermeiros)

 

O plano de parto pode conter a introdução, assuntos de maior interesse, medos ou preocupações e uma descrição do tipo de abordagem ao parto e pós-parto que a família prefere (eventos inesperados como trabalho de parto prolongado, cesariana, bebé prematuro e mesmo a vacinação ou não do bebé, cuidados com o recém-nascido, doenças súbitas ou morte do bebé).

 

O médico, a enfermeira, o guia na visita hospitalar, o educador de preparação para o parto e/ou a doula podem ser de auxílio para preparar o plano de parto, especialmente se eles estiverem familiarizados com as opções disponíveis na comunidade. O plano de parto deve reflectir as preferências da mãe/família, e não a dos amigos, médicos ou consultores.

É relevante notar que, apesar de o plano de parto ser essencial para percebermos o que se pretende, este também pode ser uma prisão ou uma armadilha quando o casal se agarra demasiado a um ideal.

 

É importante lembrar que, quanto maiores forem as expetativas acerca de algo, maior poderá ser a desilusão. O plano de parto pode eventualmente dar a sensação de segurança e algum tipo de garantia de que tudo vais correr “assim” como desejado e serve, essencialmente, para termos noção das opções que existem e dos nossos conhecimentos - funciona como uma libertação da prisão imposta e confirma a força que temos para exigir a realização dos nossos sonhos. No entanto, devemos sempre ter em consideração que a natureza humana é inexplicavelmente poderosa e pode modificar o curso dos acontecimentos de um momento para o outro.

 

 

Exemplo de um plano de parto, seguindo as recomendações da OMS:

 

Exmo. Sr. Presidente

do Conselho de Administração

do Hospital de …..

 

 

Na fase de proximidade do parto em que estamos gostaríamos, enquanto casal, que o nascimento da nossa filha decorresse dentro de um conjunto de condições que consideramos mais adequadas, tendo consciência de que podem surgir situações imprevistas que podem obrigar a que tal não possa, nem deva, ser respeitado. Gostaríamos, contudo, e uma vez que o parto irá ser realizado na instituição que dirige, de deixar uma lista das nossas preferências em relação ao nascimento e à forma como desejaríamos que decorresse. Sempre que o plano não puder ser seguido, gostaríamos, quando possível, de ser previamente consultados a respeito das alternativas.

 

Pensamos ser importante explicitar que a razão que nos leva a elaborar esta lista de preferências não é, de todo, dúvida na competência, capacidade técnica e empenho do corpo clínico do Hospital de………….

Tratando-se da expectativa de uma experiência que consideramos única e que por isso gostaríamos que corresse de forma consentânea, e tendo conhecimento que muitas práticas ganhariam em ser realizadas à luz das mais recentes directrizes da Organização Mundial de Saúde, o que nem sempre é o caso, queremos apenas deixar explícitas um conjunto de directrizes baseadas na OMS que consideramos importantes para nós, tendo em conta o nosso caso, em que até à data a gravidez não registou nenhum desvio da normalidade que obrigue a práticas médicas mais complexas, que poderiam, à partida, tirar razão de ser a este plano e tendo ainda em conta que todas as previsões medicas recentes, baseadas em avaliações efectuadas até às 39 semanas, apontam para um parto normal.

Temos ainda em conta que a OMS revela que a criação de um ambiente confortável, acolhedor e familiar é recomendado com vista a aumentar a taxa de sucesso dos partos.[1]

Confiamos, por isso, no Hospital de……….., e na equipa que nos irá acompanhar no parto, para nos ajudar, respeitando, dentro do possível, as nossas opções e, acima de tudo, envolvendo-nos no processo de decisão de qualquer acto médico que se desvie do nosso ideal, mas que seja considerado necessário pela equipa que acompanhar o parto.

 

Agradecemos, desde já, toda a atenção dispensada, apresentando de seguida a referida lista:

 

 

Trabalho de parto (dilatação):

-   presença do pai do bebé, uma vez que a OMS aconselha a escolha por parte da mãe dos acompanhantes durante o trabalho de parto e durante o parto, como essencial para diminuição de stress para um melhor desempenho[2];

-   liberdade para manter a mobilidade sempre que possível (levantar, sentar, andar um pouco) e monitorização fetal realizada de modo a que seja salvaguardada alguma mobilidade, uma vez que a OMS aconselha: “Liberdade de posição e movimento durante o trabalho do parto” e a OMS desaconselha claramente o “uso rotineiro da posição supina durante o trabalho de parto”[3];

-   não provocar a ruptura artificial da membrana (amniotomia), uma vez que a OMS não considera haver claras vantagens na sua prática[4];

 

Parto:

-   presença do pai do bebé;

-   realização se possível do parto na mesma sala onde se procedeu à dilatação, tal como aconselhado pela OMS[5];

-   liberdade para ficar de cócoras ou semi-sentada (de costas apoiadas) uma vez que a OMS desaconselha claramente a posição de costas, particularmente a de supina, com base em várias evidências científicas[6];

-   realização de episiotomia apenas se necessário (não por rotina) uma vez que a OMS desaconselha o uso rotineiro de episiotomia[7]

já que várias evidência científicas aconselham a redução do seu uso uma vez que pode ocasionar complicações pós-cirúrgicas muitas vezes desnecessárias[8],.

 

Após o parto:

-   presença do pai do bebé;

-   presença do bebé junto à mãe o tempo possível de modo a ir de encontro à directriz da OMS que aconselha realizar precocemente contacto pele a pele, entre mãe e filho, como melhor prevenção à hipotermia do recém nascido[9]; e, entre outras razões, “para dar início da amamentação na primeira hora do pós-parto, conforme directrizes da OMS sobre melhores práticas do aleitamento materno”[10]

-   promoção da amamentação natural; não administrar leite artificial, especialmente antes do contacto com a mãe e de se tentar a amamentação;

 

Caso seja necessário o recurso a cesariana:

-   anestesia epidural (sempre que possível);

-   ver o bebé assim que nasce;

-   liberdade para o pai do bebé acompanhar o bebé, perante a impossibilidade de estar presente durante a cirurgia;

 

 

Agradecemos, mais uma vez, a atenção dispensada e a ajuda para tornar o momento do parto uma experiência tranquila.

 

Muito obrigada,

 

 

Data

 

 

 

Nome da mãe:

 

 

 

Nome do pai:



[1] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 11.

[2] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, pp. 10 e 34

[3] In Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 34, ver ainda p. 21

[4] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, pp. 22 e 35

[5] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 24

[6] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, pp. 26 e 27

[7] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 36

[8] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 28. A este propósito ver por exemplo um artigo de Katherine Hartmann, Ph.D., M.D., in: Journal of the American Medical, Vol. 293 No. 17, May 4, 2005.

[9] Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, p. 32 e ponto 21 da p. 34

[10] InVer também em Manual de Aleitamento Materno, da UNICEF, 2002, p. 15. Division of Reproductive Health / Word Health Organization, Maternal and Newborn Health / Safe Motherhood, WHO/FRH/MSM/96.24, ponto 21 da p. 34.


Grata à Cassandra por este belíssimo plano de parto.